IT BOYS / JORNAL CORREIO DA BAHIA

sexta-feira, abril 01, 2011

Não são apenas as mulheres que chamam atenção por onde passam e inspiram pessoas, seja no estilo de vida ou nas roupas que vestem. Depois do termo It girl ter criado fama nas revistas de moda é a vez dos It boys despontarem no mundo fashion. Rapazes arrojados quebram regras no vestir, não temem ousar, ganham notoriedade sem muito esforço e, assim, acabam influenciando toda uma geração. Na Bahia, encontramos homens moderninhos que ainda não têm a fama dos it boys, mas entusiasmam muito com produções peculiares e arrojadas.
Inquietude no vestir”

Angeluci Figueiredo
“Não sou fashion e sim excêntrico”, define-se o artista plástico Tuti Minervino. Para ele, a moda é um refúgio. “Tenho repulsa pela minha  imagem, por isso me escondo na roupa. Até entrei na academia  para  usar algo condizente com o clima da cidade, que gostaria que fosse fria, mas não é”, comenta. O fato é que o cara exala conceito no vestir. Quem trabalha com moda o teria fácil como fonte de inspiração.
O rock’n'roll contribuiu muito para a estética, mas hoje Tuti define seu estilo como uma mistura de cinema e arte. Tanta excentricidade já foi motivo de apanhar nas ruas. “Saí vestido de punk e não deu outra”, conta, rindo. Para evitar incidentes parecidos, ele usa uma tática curiosa. “Caminho olhando para o chão. Assim, anulo tudo em volta e posso transitar com tranquilidade, sem  me sentir um elefante branco”, desabafa.
As tattoos que coleciona pelo corpo também não são por acaso. O cabide é a primeira roupa, sustenta os personagens da vida e as performances. Já o desenho “C&A” é uma sátira à massificação da moda. “Visto meu pai César e minha mãe Ângela”, fala. Suas vontades? Conhecer Londres. “Salvador caminha em passos lentos”. Esse é o cara!
Extensão  Se a roupa revela a agonia de Tuti, a casa dele não fica atrás. O artista habita um mundo caótico. Até orelhão tem no seu quarto. “Vivo uma metamorfose. Quando canso, mudo tudo”, conta. Lá estão suas coleções: de discos de vinil, filmes,  vestidos evangélicos, óculos escuros,  aparatos analógicos…
Fã das misturas

Angeluci Figueiredo
O estilo de Marco Pinheiro causa reações diversas por onde ele passa. “A primeira impressão é a rejeição. Depois vem a aceitação e, em seguida, a massificação. Todos desejam as peças que eu uso”, explica o rapaz. A calça saruel é um bom exemplo. “Fui um dos primeiros a vestir em Salvador. Tive que comprar um modelo feminino, pois não se encontrava a versão masculina nas lojas. Os amigos repudiaram. Mas, depois de um tempo, a moda se espalhou”, relembra.
No ônibus, os olhos curiosos sempre dão um jeito de espiar aquele visual diferente. “A combinação short, regata nadador e sandália gladiadora é a produção que causa mais estranheza”, conta, rindo. Mas também acontece com os outros looks escolhidos, basta reparar na produção da foto:  macacão saruel, camisa xadrez e bolsa GG para colocar tudo aquilo que  precisa.
Marco revela que se sente mais à vontade nos shoppings centers e em bairros alternativos, como o boêmio Rio Vermelho, locais onde as pessoas entendem mais suas propostas arrojadas e moderninhas.
De família Todo esse conceito vem de berço. Apesar de ser colecionador de filmes e fã de ícones como Madonna e  James Dean, todas suas referências vieram da própria casa. “Meus pais sempre foram à frente do tempo. Observando as fotos, você percebe como aquelas imagens são atuais. Sejam nas roupas ou mesmo nas poses”, comenta. Ele não esquece os óculos redondos de lentes azuis muito usado pela mãe.
Nascido em Poções, interior da Bahia, Marco logo percebeu que aquele universo era muito pequeno. Assim, veio para Salvador estudar moda. Adepto do estilo hi-lo, ele é fã das misturas. Seja do caro com o barato como do moderno com o vintage. “Sempre coloco uma peça mais cara com outras bem baratinhas”, diz.
A visita a brechó é recorrente, inclusive trabalhou em um, no Sarastro Café . “O que não serve para você pode ganhar outra conotação quando vestido pelo outro. Meus amigos desprezavam algumas peças que eu acabava ficando. Quando me viam na rua com a produção, queriam imediatamente de volta”, lembra às gargalhadas.
Apesar de se sentir em um momento mais “clássico”, no auge dos  29 anos, seu estilo se distancia e muito das tendências do momento. Definitivamente, Marco não é mais uma vítima fashion. Tem propriedade e atitude para fazer a sua própria moda.
Máscara para  timidez

Angeluci Figueiredo
A moda foi a solução encontrada pelo acanhado Beto Souza para conseguir ser visto. “Como sou muito tímido e não tenho aquela ousadia para conversar, acabei transferindo esse arrojo para a minha roupa”, explica o rapaz. Seus looks inusitados chamam atenção, o fazem diferente da massa e acabam servindo de inspiração para alguns e motivo de repulsa para muitos outros.
“Quando usei um kilt consegui perceber o olhar incrédulo das pessoas ao meu redor. Inclusive na  faculdade de moda, onde as pessoas são providas de informação”, revela. Beto se refere ao saiote  masculino, pregueado na parte de trás, trespassado na parte da frente, de comprimento da cintura até os joelhos, muito usado na Escócia ou por personalidades fashion como o estilista Marc Jacobs. O diretor criativo da grife Louis Vuitton acabou criando um estilo muito autêntico e copiado por muitos it boys quando  resolveu combinar o kilt com a bota coturno.
Aos 23 anos, recém-formado, Beto recorre à desconstrução para fazer sua própria moda. “Fujo totalmente das regras. Uso paletó com bermuda e adoro peças modernas e casuais”, revela. Suas inspirações vêm de ícones como Marilyn Manson, Madonna e Fred Mercury.
Na moda, encontrou a possibilidade de se revelar com suas produções originais, mas sem dispensar a  elegância.  “No vestir pode dizer que sou ousado mesmo”, afirma, esquecendo de vez a timidez.
Conectado com o mundo

Angeluci Figueiredo
Ele mistura a alfaiataria clássica com peças contem- porâneas e não teme em brincar com o look escolhi- do. Vale até mix de gêneros na produção. Para Léo Amaral, as regras do vestir já eram. O que realmente importa é a construção de um visual original condizente com o clima da Bahia.
Assim, o jovem de 28 anos, formado em Relações Internacionais, começou a escrever um blog de moda masculina para discutir seus conceitos. Primeiramente batizado de Cool In The Heat, virou Estilo Cool (www. estilocool. wordpress.com) para facilitar o acesso do público brasileiro. E conseguiu uma façanha: caiu no gosto dos garotos antenados.
“Nos posts, mostro como os homens se sentirem confortáveis e ao mesmo tempo fashion nesse calor de Salvador”, explica. Ele também solta o verbo se preciso, mostrando seu lado mais crítico e observador, escondido na aparência moderninha e no jeitinho amável.
Globalização Não demorou para seus comentários na internet saírem do universo baiano e rodarem o mundo. O blog  conquistou leitores na Ucrânia, na Rússia e em outros locais que Léo nunca poderia imaginar. Logo, o blogueiro resolveu dedicar o antigo endereço (www.cool intheheat.tumblr) a um tumbler – escrito em inglês, é uma rede social que mistura twitter com blog e prioriza o uso de imagens.
Movimento fashion
Léo credita o sucesso do blog ao interesse dos homens em ousar mais e quebrar rótulos. “Existe um movimento dos it boys por todo o mundo. Não é homogêneo, mas atinge principalmente a uma geração mais nova, que nasceu imersa na internet. Eles estão vivenciando toda essa efervescência fashion”, opina.
Ele acredita que os homens  maduros ainda   são muito reservados quando o assunto é ousar e afirma que temos que quebrar muitos tabus. “Infelizmente, o homem brasileiro  confunde moda com gênero. O que você veste com a sua sexualidade”, lamenta.
projetos Depois da trajetória de êxito como blogueiro, Léo conseguiu vários trabalhos importantes para grifes, a exemplo da Lacoste e Mr. Cat, como também contribuiu com o renomado site FFW na semana Iguatemi de Moda.
O conselho do jovem
para quem quer criar um estilo? “Fazer uma jornada de descobertas, entender suas referências, escolher seus ícones”, diz.  Ele mesmo gosta de se inspirar em nomes como Tom Ford e Alber Elbaz. E a partir das muitas influências  criou seu jeito peculiar de vestir. “Aprecio o retrô. Não
queria ter nascido em
1900, tenho apreço pela modernidade. Mas adoro
a interseção do antigo
com o contemporâneo em um visual. Vejo o passado com olhos do futuro”, filosofa

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